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terça-feira, 8 de junho de 2010

Limpeza

     Andei um pouco desligado de São Gabriel nos últimos dias e acabei ficando sem assunto para escrever. Mas essa minha querida terra natal não falha em me oferecer surpresas. Pela coluna do amigo Anderson Almeida, fiquei sabendo que o vereador Rômulo Farias desceu lenha no Colégio Tiradentes porque teriam obrigado seu filho, aluno da escola, a fazer faxina. “Não criei meu filho pra isso”, teria dito.
     Haja paciência vereador. Fique o senhor sabendo que muitas pessoas veem na faxina um meio de sustento pra si e suas famílias. Trata-se de um trabalho digno, tanto quanto outro qualquer. Por muitas vezes mais honesto que a vereança, diga-se de passagem. Por acaso Vossa Excelência considera os funcionários que fazem a limpeza da Câmara de Vereadores menos cidadãos que o senhor?
     Aqui em Porto Alegre, não tenho empregada doméstica. Quem cuida dos afazeres da casa somos eu e minha namorada. Eu faço faxina, vereador. E não me sinto nem um pouco envergonhado por isso. A sua casa é uma pocilga que nem limpa? Acredito que não. Portanto, segundo seu raciocínio, todo dia tem alguém sofrendo a humilhação de limpar seu banheiro.
     Faça-me o favor, vereador. O Colégio Tiradentes é administrado pela Brigada Militar. Como tal, trabalha com atividades extracurriculares do cotidiano militar, sob um regime disciplinar diferenciado. Além disso, todos os alunos que lá estão ingressaram por meio de um processo seletivo pago, ou seja, candidataram-se a uma vaga.
     Se o senhor acha que seu filho não deve se submeter às regras, troque-o de escola. No popular, desocupe a moita. Tem uma fila de jovens esperando na fila. Acredito que consiga uma vaga na Escola Estadual de Ensino Médio XV de Novembro, por exemplo. O único problema seria a falta de professores, resultado da transferência de docentes feita “nas coxas”, justamente para o Colégio Tiradentes, em função da pressão que se tinha para colocá-lo em funcionamento.
     Outro conselho vereador: o senhor pode fazer melhor uso da tribuna da Câmara para discutir assuntos do interesse coletivo da sociedade. Nunca é demais polir o que se vai dizer ao público. Se bem que polir também é limpeza e o senhor não deve ter sido criado para isso.
     São Gabriel realmente não cansa de me surpreender.

sábado, 24 de abril de 2010

Descaso público com a Educação

     O que era para ser uma conquista para aprimorar a qualidade do ensino em São Gabriel se transformou em um grande transtorno. No início da semana passada, a Escola Estadual de Ensino Médio XV de Novembro perdeu três professores, que passaram a integrar o quadro docente do Colégio Tiradentes. A Escola Estadual de Ensino Médio João Pedro Nunes (Poli), e o Instituto Estadual de Educação Menna Barreto também ficaram com um professor a menos cada um. A medida abriu um rombo na grade de disciplinas dos colégios e revoltou os mais de 500 estudantes que ficaram sem aula.
     Como o assunto é educação, vou tentar explicar da forma mais didática possível o que ocorreu. O Colégio Tiradentes é mantido pela Secretaria de Segurança Pública (SPP/RS), e tem composição mista. As atividades extraclasse e administrativas ficam a cargo da Brigada Militar, enquanto a parte curricular pedagógica é de responsabilidade da Secretaria Estadual de Educação, que deve compor o quadro do colégio com professores nomeados (concursados) da rede.
     Assim, os docentes foram informados de que havia vagas para lecionar no Colégio Tiradentes. Os interessados encaminharam seus currículos e a 19ª Coordenadoria Regional de Educação (19ª CRE), responsável pelas escolas da região, verificou as competências dos candidatos e encaminhou a transferência. Todo esse processo só é confirmado quando a 19ª CRE expede ao professor um documento chamado “FONO”, que comprova a troca de lotação, ou seja, que ele se desligou, total ou parcialmente, de uma escola para lecionar em outra. A coordenadoria também é responsável por informar oficialmente a escola da saída do docente e providenciar a reposição.
     A diretora do XV de Novembro, professora Andréa Bonorino Cunha, afirma que o colégio foi pego totalmente de surpresa, e que não recebeu nenhum tipo de comunicação da 19ª CRE. De um dia para o outro os professores simplesmente deixaram de comparecer. Com isso, o XV de Novembro, que já estava com falta para as disciplinas de Artes, Ensino Religioso e Espanhol, ficou ainda sem professores para Física, Português e Inglês.
     A coordenadora da 19ª CRE, Carmem Llaguno, diz que foi feito um aviso verbal, que a comunicação oficial já foi encaminhada para escola, e que se ainda não chegou é devido à distância. Mas o amigo leitor sabe que entre São Gabriel e Livramento são apenas duas horas de estrada, sendo que os professores estão lecionando no Colégio Tiradentes desde o dia 12 de abril. Llaguno informa ainda que as providências para reposição dos professores já foram tomadas, mas não sabe precisar uma data de quando isso deve ocorrer. Por enquanto, o XV de Novembro recebeu apenas um professor de Português, mas essa contratação já estava prevista mesmo antes da saída dos três docentes. Outro problema nessa troca, é que os professores receberam o FONO apenas no dia 22 de abril, com data retroativa ao dia que ingressaram no Tiradentes. Ou seja, a 19ª CRE permitiu a mudança de escola sem a devida documentação, de forma irregular.
     O comandante do Colégio Tiradentes, major Edison Fagundes Lara, ressalta que a escola apenas recebeu os professores e que, de forma alguma, tinha a intenção de prejudicar outras instituições. O major demonstra preocupação de que os alunos do Tiradentes passem a sofrer algum tipo de discriminação ou represália, o que seria absolutamente descabido, pois os estudantes são meras vítimas dessa enorme confusão. Fagundes explica também que, como muitas outras escolas pelo estado, faltam cinco professores para completar o quadro do colégio.
     Esse episódio é um exemplo perfeito do descaso com o ensino público gaúcho. Fora o fato de que a situação privilegia uma elite educacional, escolhida por meio de uma seleção paga. Qualquer pessoa que analisar um pouco mais de perto verá que o ocorrido é completamente absurdo. O XV de novembro, com 865 alunos, que há 62 anos cumpre seu papel de educar a comunidade gabrielense, perdeu três professores para o Colégio Tiradentes, recém inaugurado com apenas 90 estudantes. O pior é que esses docentes lecionavam para turmas do 3º ano do Ensino Médio do XV, enquanto todos os alunos do Tiradentes são do 1ª ano. Agora, aproximadamente 500 jovens que estão no momento de preparação para o vestibular e o ENEM, voltam para casa mais cedo porque não há quem ministre as disciplinas. Por semana, 97 horas/aula deixam de ocorrer.
      Engana-se quem pensa que se trata de um caso isolado. Por todos os cantos do Estado brotam deficiências em escolas que precisam fazer mágica para oferecer o mínimo necessário aos estudantes. Tudo consequência de um (des)Governo displicente, que sucateia cada vez mais a educação gaúcha. As demoradas contratações emergenciais de professores tentam tapar o sol com a peneira, como desculpa de uma administração intransigente que só admite realizar concurso público depois que conseguir acabar com o plano de carreira dos educadores. Tomara que o povo não tenha memória curta e possa mudar essa triste realidade nas eleições que aí estão.