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sábado, 27 de março de 2010

Goteira aberta

     Na semana em que se comemorou o Dia Mundial da Água, 22 de março, a goteira da discórdia entre a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) e a Prefeitura Municipal continua a encher a paciência da população gabrielense.
     O Superior Tribunal de Justiça derrubou a liminar que suspendia os efeitos do decreto executivo nº 10/2010, em decisão favorável a retomada dos serviços de saneamento para o Município. Contudo, a disputa agora mudou de figura. O Tribunal de Contas do Estado deferiu uma medida cautelar do Ministério Público de Contas, que determina a suspensão do contrato firmado, sem licitação, entre a Prefeitura Municipal e a empresa Revita Engenharia SA, que assumiria os serviços ao custo de R$ 720 mil mensais. O Ministério Público Estadual ajuizou uma ação civil pública com o mesmo teor. Nos dois casos, a razão para essas medidas é que o contrato teria sido feito de forma irregular, por não haver emergência que justifique a dispensa de licitação e pela falta do Plano Municipal de Saneamento.
     A meu ver, essa situação chegou a um nível que não era necessário. A menos que essa guerra seja motivada por outros interesses que não a qualidade do saneamento, a discussão já devia estar resolvida há muito tempo. Não é possível que o prefeito Rossano Gonçalves, com sua capacidade de diálogo característica, segundo afirmação do próprio Luiz Zaffalon, presidente da Corsan, em entrevista a Rádio RBC, não consiga encontrar uma solução mais harmônica.
     A Corsan se colocou à disposição para negociar os termos de um novo contrato para renovação da concessão, que incluiria uma série de obrigações e metas de investimento a serem cumpridas pela Companhia, mas a Prefeitura ainda resiste. As audiências públicas realizadas na Câmara Municipal de Vereadores também não trouxeram resultado. Talvez, uma consulta pública na qual se possa opinar quanto à qualidade dos serviços da Corsan, consiga apontar a vontade do povo gabrielense. Fica a dica. Pode estar aí a solução para fechar essa incômoda goteira.

Foi dada a largada!

     Os eleitores de São Gabriel devem ficar atentos, pois as negociações políticas na cidade estão a passos largos na corrida para o pleito deste ano. Costuras, acordos e propostas se multiplicam no processo de definição das candidaturas para deputado estadual.
     Entre as principais figuras, Rossano Gonçalves (PDT) deve ter que lidar com a balança na delicada divisão de seu apoio entre o candidato de seu partido, Gerson Burmann, e seu aliado político Coffy Rodrigues, do PSDB – herdeiro da cadeira deixada pelo prefeito na Assembleia, com quem possui estreita relação.
     O eterno candidato Baltazar Balbo Teixeira tenta de novo, desta vez pelo PSB. O comando do partido em São Gabriel não viu com bons olhos a filiação do ex-prefeito, que teve de recorrer ao líder da legenda no Estado, Beto Albuquerque, para garantir seu espaço.
     Pelo PTB, o empresário Marco Antônio Salgado lança uma pré-candidatura meio que independente, e deve disputar o apoio da Executiva do partido com o possível candidato de Esteio, Miguel Luz, presidente da Associação dos Jornais do Interior do Rio Grande do Sul (ADJORI-RS).
     É bom que o eleitor gabrielense fique de olhos bem abertos para acompanhar os desfechos dessa corrida maluca pelas cadeiras no parlamento gaúcho.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Guerra de água

     O embate entre a Prefeitura Municipal e a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) gerou tanta polêmica ao longo da semana que a população acabou afogada num manancial de opiniões diversas que mais serviu para confundir do que esclarecer. Por isso, na coluna de hoje tento explicar melhor a situação. Estive em São Gabriel nos últimos dias e aproveitei para conversar diretamente com representantes dos dois lados nessa batalha líquida.
     Mas antes de apresentar os argumentos de cada parte é preciso retomar os fatos. O contrato de concessão com a CORSAN expirou em de março de 2009, e desde então a empresa vinha operando normalmente, no aguardo pelo processo de renovação. No último dia 29 de janeiro o prefeito Rossano Gonçalves publicou o decreto executivo nº 10/2010, retomando os serviços de abastecimento de água concedidos à Corsan. A medida determinou a ocupação das instalações, nomeou uma Comissão Especial para a retomada dos serviços, e requisitou os funcionários da Corsan por 60 dias para o período de transição. No mesmo dia, a prefeitura publicou a súmula do contrato estabelecido com a Revita Engenharia S/A em regime de urgência, para assumir o serviço a um custo de R$ 720 mil por mês.
     O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Estado do Rio Grande do Sul (Sindiágua), Rui Porto, alega que o decreto desrespeita a lei nº 11445/07, que estabelece as diretrizes nacionais para o saneamento básico, e diz que o município deve indenizar o patrimônio da empresa. Além disso, Porto argumenta que não há emergencialidade que justifique a contratação da Revita.
     O Sindiágua cobra também a existência do Plano Municipal de Saneamento, exigido na lei para que se possa contratar uma empresa para os serviços de distribuição de água. Outra reclamação é que a Revita possui registro no CREA-RS há apenas 3 meses e atua principalmente na construção de aterros sanitários, coleta e depósitos de resíduos sólidos. Em outras palavras, que a empresa trabalha com lixo e não teria experiência para o serviço de abastecimento de água.
     O procurador jurídico do município, Everson Dornelles de Dornelles, rebate afirmando que a emergência está na necessidade de dar continuidade a distribuição de água e que a rede de instalações da Corsan é precária. De acordo com Dornelles, o Plano Municipal de Saneamento só não foi concluído ainda porque a Corsan estaria se negando a fornecer as informações necessárias. Por sua vez, o diretor comercial da Corsan, Ricardo Bragança, nega o não fornecimento de informações e afirma que, em conversa pessoal com o prefeito, teria oferecido o desenvolvimento do plano pela Companhia gratuitamente. Dornelles justifica também o registro recente da Revita no CREA-RS por se tratar de um conselho regional, diz que a empresa atua na distribuição de água há muito tempo em outras regiões e cita como exemplo a cidade de Manuas/AM. Minha pesquisa na internet mostrou que o abastecimento em Manaus/AM é administrado pelo grupo Solvi, o mesmo que controla a Revita, mas por outra empresa: a Águas do Amazonas.
     Naturalmente essa discussão foi parar na justiça. A prefeitura ganhou em primeira instância, mas o Tribunal de Justiça do RS jogou um balde de água fria nas intenções do executivo e concedeu liminar suspendendo os efeitos do decreto até que se julgue o mérito do processo. O município vai recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e a expectativa, segundo o procurador Everson Dornelles, é que a decisão final saia em março.
Apresentadas as razões dos dois lados da disputa, deixo a minha opinião pessoal enquanto cidadão. O motivo de emergencialidade dado pela prefeitura para contratar a Revita carece de sustentação. Pois a Corsan estava e continua operando normalmente, sem oferecer risco a distribuição de água para a população. A questão do Plano Municipal de Saneamento está num empurra, empurra, do qual será difícil apontar a verdade. Ou seja, ainda tem muita água por rolar.
     Agora, resta aguardar a decisão do STJ e ficar atento para que, quando o impasse estiver solucionado, o processo para contratação de uma distribuidora de água aconteça como manda a lei: com o Plano Municipal de Saneamento concluído, com audiência pública para a construção do edital, e com a devida licitação. Só dessa forma poderemos garantir que a qualidade do serviço e o interesse da comunidade não vão por água abaixo.